
Somos compostos por personagens. Todos nós. Algumas delas são mais semelhantes a nós; outras distanciam-se de maneira a quase não ser possível associá-las ao verdadeiro “eu”. Somos mais vezes o que é preciso e nos convém no momento, do que o que devemos realmente ser.
Consigo imaginar um armário longo de madeira escura, com portas de correr. Dentro dele estão, dispostas em longas prateleiras, várias máscaras. Por baixo delas, penduradas em cabides coloridos, vários vestidos e dezenas de pares de sapatos.
Para os dias tristes, um vestido escuro, sapatos fechados e escuros também, conjugados com a máscara que mais tapa o rosto e na qual seja possível desenhar um sorriso, mesmo que ténue. Para quando precisamos de nos sentir confiantes, um vestido colorido e uma máscara que mostre apenas o que temos de melhor. É para quando nos sentimos melhor que guardamos o vestido que sempre nos foi mais querido, aquele que só usamos em ocasiões especiais, junto com os sapatos pelos quais nos apaixonámos à primeira vista e a máscara que menos tapa – para nós, ela apenas corrige algumas imperfeições.
Mais raras e prazeirosas são as situações em que somos puros, em que não usamos máscaras, em que não fingimos nem escolhemos o vestido a dedo: é ele que nos escolhe a nós.
Para quem se habitua a ter sempre uma máscara à mão, torna-se difícil ser ele próprio. Já não tem a confiança de outrora, sente que tem de agradar aos outros para ser feliz. Só se sente bem quando é reconhecido e vive em busca de uma palavra de apreço. É importante limitarmos o nosso armário de máscaras, torná-lo o mais pequeno possível e esforçarmo-nos para que as máscaras que usamos quando necessário não escondam o melhor de nós
Usamos máscaras para esconder o que achamos que temos de mal. Do que nos esquecemos, é que, ao usá-las, não só escondemos o pior, como escondemos também, por vezes, o melhor; o medo apodera-se de nós e não somos capazes de nos dar aos outros. Quando usamos uma máscara muito tempo, ela cola-se ao rosto e é necessária uma força quase divina para a descolar. E eu acho que ainda não sei como fazê-lo, esse é um tipo de força que ainda não encontrei.
As máscaras são como os medicamentos: são perigosas e se não aprendermos a controlar a sua dosagem, elas podem tornar-se nocivas e conduzir à morte. Pelo menos à morte de algumas partes de nós, muito importantes, por vezes.
Sem comentários:
Enviar um comentário